Entre Desafios e Conquistas
Eu já comentei aqui no blog sobre a história de uma Dentista brasileira — a primeira que entrou em contato comigo — que certa vez apareceu do nada onde eu trabalhava pedindo para conversar comigo sobre como ela poderia trabalhar como Dentista nos Estados Unidos. Ela disse estar de passagem, visitando uma prima — se não me engano — e falou que estava “encantada” com tudo o que ela estava vendo e queria saber como ela poderia também trabalhar como dentista aqui nos Estados Unidos. Somente um detalhe: ela disse que não falava um “a” de inglês.
Pois bem, mais de quinze anos se passaram desde esta interação, muitas postagens aqui no blog, muita gente que conheceu o nosso trabalho no Ellen Jones Community Dental Center, muitas pessoas entenderam como o processo de validação do Diploma de Odontologia nos Estados Unidos funciona. Colegas que usaram destas informações e correram atrás do seu sonho e finalmente conquistaram o que buscavam. Sempre disse que poder ajudar quem precisava era um prazer, e prazer maior ainda é saber do sucesso de pessoas que não tinham ideia de como e por onde começar e, através da leitura do blog, conseguiram alcançar seus objetivos.
Pois bem, em breve vai ser a minha vez. Confesso que demorei para chegar até aqui. Minha mãe sempre disse que “tudo tem seu tempo” e, hoje, eu reconheço que, sim, eu não demorei um ano se quer para fazer parte deste grupo de colegas oriundos de 29 diferentes nacionalidades que estarão em breve recebendo o reconhecimento público de que serão reconhecidos como Dentistas Americanos.
Comecei este programa, antes do dia 24 de julho de 2023. Minha jornada começou no dia 15 de fevereiro daquele mesmo ano, quando recebi o e-mail congratulatório de que eu havia sido selecionado para fazer parte da turma de 2025. Por meio de pesquisa online, eu comecei a buscar formas de me preparar mentalmente para este desafio. Eu nem pensava que estar longe dos bancos de estudante por quase 25 anos pudesse fazer alguma diferença. Na verdade, eu estava disposto a mudar a minha história acadêmica, procurando mudar a chave interna — dentro da minha cabeça — de que eu poderia, com muito estudo e esforço, estar na frente da turma no dia da cerimônia de formatura, proferindo o discurso na frente de toda a audiência. Seria uma homenagem para minha esposa, filha, pais, irmãos e amigos que torceram por mim, me apoiaram em oração e me deram condições para estar ali. Fui atrás de aulas online de como estudar, estudei tudo o que eu poderia fazer para não deixar acumular matéria, para que eu não precisasse varar a noite estudando para conseguir boas notas nos exames e galgar a minha posição como orador da turma.
Eu não deixei me acomodar. Por mais de um ano, após aulas longas e às vezes extenuantes, eu voltava para o dormitório e revia toda a matéria dada. “Aula dada é aula estudada hoje”. Esse era meu moto e diariamente eu reescrevia a matéria, assistia novamente às aulas, mandava e-mails para professores com dúvidas sobre o assunto abordado. Usava o calendário de aulas para me preparar para as aulas que viriam, interagia com professores e perguntava, sem qualquer vergonho, tudo o que eu não entendia durante as aulas. Uma receita simples e prática de sucesso.
Os dias foram passando, os exames realizados, mas os resultados não condiziam com o esforço que eu estava colocando. Isso acabou me tirando um pouco do centro, me fazendo questionar sobre a minha capacidade cognitiva. Busquei auxílio na Universidade que oferece ajuda para quem está passando por questionamentos existenciais. Em nove sessões, eu cheguei à conclusão de que talvez eu estivesse exagerando um pouco no meu objetivo. Eu tinha sido escolhido em um grupo de 9000 candidatos que aplicaram para este programa. Estar ali já era uma grande vitória e uma grande conquista. Um amigo que terminara o programa três anos antes disse para eu não me preocupar com a minha classificação, porque a mesma licença a que o primeiro colocado teria também teria o mesmo peso da que eu teria e, no final, a classificação era irrelevante. Ele mesmo disse que, na busca de ser o primeiro da turma, ele desenvolveu stress pós-traumático da escola. Ele disse para que eu não me preocupasse com isso e simplesmente aproveitasse os dias ali, procurando aprender o máximo possível. Foi o que fiz.
Tudo correu bem até a chegada de setembro de 2024, quando a classificação oficial da classe saiu. Eu estava longe de ser o primeiro lugar. Pensa em uma desilusão sobre a vida de uma pessoa. Tanto esforço para ter seu nome no final de uma lista. Mesmo sabendo que a classificação não me traria benefício nenhum, aquilo me deixou muito mal. Outra queda no moral e autoestima. Será que todo o tempo investido foi em vão? Será que eu conseguiria terminar o curso? Dúvidas, questionamentos e incertezas começaram a aparecer dentro da minha cabeça, me fazendo questionar se eu era capaz, mesmo, de estar ali. Há muito tempo eu deixara de almejar ser o orador da turma e agora eu orava para poder terminar o curso. Uma sucessão de resultados acadêmicos questionáveis e a voz do professor que me entrevistou para o programa me perguntando se alguém com um GPA do Brasil baixo como o meu teria condições de aguentar este curso intenso, puxado e difícil.
Eu não queria me dar por vencido e confesso que algumas vezes eu me questionei sobre a minha capacidade. Chorei lágrimas de frustração, pensando que não estar na frente de todos na classe me colocaria em uma posição abaixo de todos. Além de ser o orador, eu buscava ser indicado para um “honor society” onde somente os 20 melhores alunos escolhidos pelos professores receberiam esta homenagem. Na minha classificação, meu nome nem de longe seria cogitado. Assim como eu dedicaria meu diploma para minha esposa e filha, ser indicado para esta “honor society” eu iria dedicar para meus pais que nunca desistiram de mim, mesmo passando por tanta dificuldade acadêmica durante meus dias no Brasil. Eu queria fazer desta oportunidade uma chance de poder me redimir e poder dar isso para eles, mostrando que o esforço deles valera a pena.
Estou há pouco mais de dois meses da cerimônia de graduação. Infelizmente, não será o final para mim, haja vista que a carga horária do programa para dentistas estrangeiros necessita pelo menos mais 90 dias depois da cerimônia. Mesmo que eu saiba que precisarei ficar ali por mais algumas semanas, o sentimento de andar sobre aquele palco, a indumentária da cerimônia. A visita dos meus pais e irmãos, a presença de gente querida e importante na minha vida naquele dia certamente vai ficar marcada para o que me resta de vida. Não sei quantos anos ainda vou ter pela frente, mas sei que, tendo chegado até aqui, foi tudo no tempo certo. Foi no tempo que Deus quis para mim e Ele, com certeza, tem o tempo certo para você e seus objetivos. Coloque-se na presença dEle e aguarde. Ele não vai te decepcionar.
Um abraço e sucesso sempre!